Entenda as normas IFRS S1 e IFRS S2: governança, riscos e clima
ESG

Entenda as normas IFRS S1 e IFRS S2: governança, riscos e clima

Bruno Basso
25 de jan, 2026
14 mins

Entenda as normas IFRS S1 e IFRS S2: governança, riscos e clima

As normas IFRS S1 e IFRS S2, emitidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), representam uma virada relevante na forma como organizações devem tratar sustentabilidade, clima e desempenho econômico.

Mais do que um novo padrão de reporte, elas consolidam a expectativa de investidores, reguladores e conselhos de administração por informações financeiras e pré‑financeiras conectadas, consistentes e orientadas a decisões.

Este artigo vai além da explicação conceitual. O objetivo é mostrar o que muda na prática, quais são as responsabilidades de governança envolvidas e por que IFRS S1 e S2 devem ser tratadas como um tema estratégico — e não apenas como mais um relatório.

Por que surgiram as IFRS S1 e S2?

As normas IFRS S1 e IFRS S2 representam uma mudança estrutural na forma como sustentabilidade e clima são tratados sob a ótica financeira.

Nos últimos anos, investidores, analistas financeiros e demais participantes do mercado enfrentaram um problema crescente: a falta de padrões consistentes e comparáveis para divulgar informações de sustentabilidade e clima com relevância financeira. Embora existissem diversos frameworks (como GRI, SASB, TCFD, CDSB e Relato Integrado), eles tinham escopos, metodologias e focos diferentes, o que tornava difícil comparar relatórios entre empresas e compreender riscos e oportunidades de forma uniforme.

A fragmentação de padrões criou dificuldades reais

Antes do ISSB, cada framework tinha objetivos específicos:

  • GRI tinha foco em impacto e transparência para múltiplos stakeholders;
  • SASB priorizava temas com materialidade financeira por setor;
  • TCFD focava exclusivamente no clima, com recomendações estruturadas em governança, estratégia, gestão de risco e métricas;
  • CDSB e Relato Integrado buscavam integração entre sustentabilidade e finanças.

Essa diversidade trouxe benefícios em pontos específicos, mas também gerou informações inconsistentes, não comparáveis e de difícil avaliação para investidores globais — o que reduzia a confiança dos mercados e dificultava decisões de alocação de capital.

O papel do ISSB e a consolidação dos padrões

Para enfrentar essa lacuna, a IFRS Foundation — a mesma organização que define os padrões contábeis IFRS — anunciou, em novembro de 2021, a criação do International Sustainability Standards Board (ISSB), com o objetivo explícito de desenvolver padrões globais de divulgação de sustentabilidade que atendam à demanda dos investidores por informações materialmente relevantes e comparáveis internacionalmente.

Em 26 de junho de 2023, o ISSB emitiu seus primeiros dois padrões:

  • IFRS S1 — Requisitos Gerais para Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade, com foco em todos os riscos e oportunidades de sustentabilidade relevantes ao desempenho econômico;
  • IFRS S2 — Divulgações Relacionadas ao Clima, especificando requisitos para temas climáticos e alinhado às recomendações do TCFD.

Esse movimento representa uma convergência dos principais frameworks existentes, reduzindo a multiplicidade de diretrizes e estabelecendo um baseline global para informação financeira relacionada à sustentabilidade e ao clima, com foco em materialidade financeira — ou seja, aquilo que pode influenciar decisões de investidores e credores.

Riscos e oportunidades agora conectados ao valor da empresa

A lógica por trás da IFRS S1 e IFRS S2 é simples e direta: sustentabilidade e clima não são “temas periféricos” — eles afetam diretamente o desempenho financeiro de empresas, como:

  • fluxo de caixa futuro,
  • acesso a capital e custo de financiamento,
  • valorização/riscos de ativos e passivos,
  • capacidade de execução de estratégias de longo prazo.

Ignorar essas informações ou apresentá-las de forma inconsistente deixou de ser uma opção aceitável do ponto de vista fiduciário — especialmente para investidores que buscam decisões bem fundamentadas e comparáveis globalmente.

O papel das IFRS S1 e S2 no cenário regulatório atual

Como reflexo dessa necessidade, muitas jurisdições já estão adotando ou alinhando seus requisitos regulatórios às IFRS S1 e IFRS S2. No Brasil, por exemplo, a CVM incorporou essas normas via Resolução CVM nº 193, com adoção obrigatória para companhias abertas a partir de 2027 — um movimento que acelera a integração entre relatórios financeiros e de sustentabilidade no mercado de capitais.

IFRS S1: sustentabilidade como risco e oportunidade financeira

A IFRS S1 é a norma-base do ISSB para divulgações de sustentabilidade. Ela estabelece os requisitos gerais para que empresas divulguem informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, sempre sob a ótica da materialidade financeira — isto é, aquilo que pode influenciar decisões de investidores e credores.

Diferentemente de outros frameworks tradicionais, a IFRS S1 não tem como foco principal o impacto socioambiental amplo (como ocorre no GRI), mas sim como fatores ambientais, sociais e de governança (ESG) afetam — ou podem afetar — o desempenho econômico, o fluxo de caixa e a capacidade de geração de valor da organização no curto, médio e longo prazo.

Essa mudança de lógica é fundamental: sustentabilidade deixa de ser um tema reputacional ou narrativo e passa a integrar o núcleo da análise financeira e estratégica do negócio.

Sustentabilidade conectada às perspectivas econômicas

A IFRS S1 parte de um pressuposto claro: riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade já influenciam premissas financeiras, decisões de investimento, custo de capital e avaliação de ativos e passivos.

Por isso, a norma exige que a organização identifique e divulgue apenas os temas que sejam materialmente relevantes do ponto de vista financeiro, considerando sua cadeia de valor, o setor em que atua e o horizonte temporal das decisões econômicas.

Esse enfoque aproxima definitivamente sustentabilidade de áreas como:

Os quatro pilares da IFRS S1

A estrutura da IFRS S1 segue a mesma lógica consagrada pela TCFD, organizada em quatro pilares, agora aplicáveis a todos os temas de sustentabilidade, e não apenas ao clima:

  1. Governança

A empresa deve explicar como o conselho de administração e a alta gestão supervisionam riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade.

Isso inclui:

  • papéis e responsabilidades;
  • competências técnicas do conselho;
  • integração do tema na agenda estratégica e nos comitês de assessoramento.

Na prática, a norma reforça que sustentabilidade passa a integrar o dever fiduciário do conselho, aproximando-se das responsabilidades tradicionais ligadas às demonstrações financeiras.

  1. Estratégia

A IFRS S1 exige que a organização demonstre como riscos e oportunidades de sustentabilidade influenciam o modelo de negócios, a estratégia e o planejamento financeiro.

Não se trata apenas de listar riscos, mas de explicar:

  • impactos potenciais nas receitas, custos e investimentos;
  • efeitos sobre a competitividade e a resiliência do negócio;
  • conexões com decisões estratégicas de médio e longo prazo.

Esse ponto costuma revelar um dos principais gaps das organizações: muitas identificam riscos ESG, mas não conseguem demonstrar como eles alteram decisões reais de negócio.

  1. Gestão de riscos

Neste pilar, a empresa deve detalhar como identifica, avalia, prioriza e monitora riscos e oportunidades de sustentabilidade, incluindo sua integração aos processos tradicionais de gestão de riscos corporativos (ERM).

A expectativa do ISSB é que:

  • riscos ESG não sejam tratados de forma paralela ou isolada;
  • haja consistência entre riscos financeiros, operacionais, regulatórios e de sustentabilidade;
  • existam processos claros, documentados e auditáveis.
  1. Métricas e metas

Por fim, a IFRS S1 exige a divulgação de métricas e metas utilizadas para monitorar riscos e oportunidades de sustentabilidade, sempre com foco em relevância financeira.

Essas métricas devem ser:

  • consistentes ao longo do tempo;
  • comparáveis;
  • suportadas por dados confiáveis e verificáveis;
  • conectadas às decisões e aos resultados financeiros.

Esse requisito aproxima a sustentabilidade do mesmo nível de rigor exigido para indicadores financeiros tradicionais.

O conceito-chave: conectividade da informação

O elemento central da IFRS S1 é a conectividade. A norma deixa explícito que as informações de sustentabilidade devem dialogar diretamente com as demonstrações financeiras, incluindo:

  • premissas utilizadas em projeções;
  • estimativas contábeis relevantes;
  • julgamentos da administração;
  • avaliação de ativos, passivos e provisões.

Isso significa que não pode haver contradição entre o que o relatório de sustentabilidade afirma e o que as demonstrações financeiras pressupõem.

Na prática, essa exigência:

  • eleva o nível de responsabilidade das áreas envolvidas;
  • exige maior maturidade em governança da informação;
  • aumenta o papel de compliance, controles internos e auditoria.

Por que a IFRS S1 é um divisor de águas

A IFRS S1 marca uma transição definitiva: sustentabilidade deixa de ser um relatório acessório e passa a ser uma variável estrutural da análise financeira e da tomada de decisão estratégica.

Empresas que tratam a norma apenas como um exercício de reporte tendem a enfrentar dificuldades. Já aquelas que usam a IFRS S1 como ferramenta para organizar riscos, decisões e evidências ganham vantagem competitiva, maior previsibilidade e mais credibilidade junto ao mercado.

Enquanto a IFRS S1 estabelece a base geral, as IFRS S1 e IFRS S2 formam, em conjunto, o novo padrão global de divulgação financeira relacionada à sustentabilidade.

IFRS S2: clima no centro da estratégia empresarial

No contexto das IFRS S1 e IFRS S2, o clima passa a ser tratado como variável financeira central, exigindo integração direta com estratégia e finanças.

A IFRS S2 aprofunda e detalha as divulgações relacionadas ao clima, posicionando esse tema como uma variável financeira crítica para a estratégia, a resiliência e a continuidade dos negócios. Diferentemente de abordagens mais genéricas sobre sustentabilidade, aqui o foco é direto: como as mudanças climáticas podem afetar o desempenho econômico da organização.

A norma incorpora integralmente a estrutura da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), reconhecida globalmente por investidores, reguladores e mercados financeiros. Com isso, o nível de exigência técnica, analítica e de governança é significativamente mais elevado do que em relatórios tradicionais de ESG.

Na prática, a IFRS S2 consolida o entendimento de que clima não é um risco ambiental abstrato, mas um fator que pode impactar receitas, custos, ativos, passivos, acesso a capital e custo de financiamento.

Clima como risco financeiro material

A IFRS S2 exige que a organização identifique e divulgue riscos e oportunidades climáticas que possam razoavelmente afetar suas perspectivas financeiras, considerando o curto, médio e longo prazo.

Esses riscos são classificados em duas grandes categorias:

Riscos climáticos físicos

Relacionados aos efeitos diretos das mudanças climáticas sobre operações, ativos e cadeias de valor, podendo ser:

  • Riscos físicos agudos: eventos extremos, como enchentes, secas, ondas de calor, tempestades e incêndios florestais;
  • Riscos físicos crônicos: mudanças graduais e persistentes, como aumento da temperatura média, elevação do nível do mar, escassez hídrica e perda de biodiversidade.

Esses riscos podem impactar, por exemplo:

  • disponibilidade de insumos;
  • continuidade operacional;
  • custos de seguros;
  • valor recuperável de ativos.

Riscos de transição

Decorrem do movimento global rumo a uma economia de baixo carbono e incluem:

  • riscos regulatórios (novas leis, precificação de carbono, exigências de reporte);
  • riscos tecnológicos (substituição de tecnologias intensivas em carbono);
  • riscos de mercado (mudança no comportamento de consumidores e investidores);
  • riscos reputacionais (perda de confiança por falta de ação ou transparência).

Esses riscos afetam diretamente decisões de investimento, estrutura de capital e competitividade de longo prazo.

Análise de cenários e resiliência da estratégia

Um dos pontos mais sensíveis — e menos maduros nas organizações — é a exigência de análise de cenários climáticos.

A IFRS S2 determina que as empresas avaliem a resiliência de sua estratégia frente a diferentes cenários climáticos, inclusive cenários mais adversos. Não se trata de previsão exata do futuro, mas de testar premissas estratégicas, financeiras e operacionais diante de possíveis trajetórias de aquecimento global e transição regulatória.

Essa análise conecta clima diretamente a:

  • planejamento estratégico;
  • decisões de investimento e desinvestimento;
  • orçamento de capital;
  • avaliação de riscos de longo prazo.

Emissões de GEE: dados que sustentam decisões

A IFRS S2 exige a divulgação de emissões de gases de efeito estufa (GEE), de forma consistente, comparável e verificável, abrangendo:

  • Escopo 1: emissões diretas das operações;
  • Escopo 2: emissões indiretas associadas à energia adquirida;
  • Escopo 3: outras emissões indiretas ao longo da cadeia de valor, quando relevantes.

Mais do que um inventário ambiental, esses dados passam a ser tratados como informação financeira relevante, pois impactam:

  • riscos regulatórios;
  • exposição a mercados de carbono;
  • decisões de investimento;
  • reputação e acesso a financiamento sustentável.

A exigência de asseguração independente reforça a necessidade de controles internos, rastreabilidade e qualidade dos dados.

Métricas, metas e planos de transição climática

A norma também exige transparência sobre:

  • métricas utilizadas para monitorar riscos e oportunidades climáticas;
  • metas definidas (quando existentes);
  • progresso ao longo do tempo.

A IFRS S2 não obriga a empresa a ter um plano de transição climática. No entanto, se a organização tiver definido esse plano — ou anunciado compromissos climáticos — ela é obrigada a explicar, detalhar e evidenciar:

  • objetivos e metas;
  • ações concretas;
  • premissas críticas;
  • recursos alocados;
  • governança e monitoramento.

Esse ponto é decisivo, pois desloca o foco do discurso para a capacidade real de execução. Promessas genéricas, metas vagas ou compromissos sem lastro operacional passam a representar risco regulatório, reputacional e até legal.

Governança e responsabilidade do conselho

Assim como na IFRS S1, a IFRS S2 reforça que a supervisão do risco climático é responsabilidade direta do conselho de administração. O conselho deve garantir que:

  • o tema esteja integrado à estratégia;
  • existam competências adequadas para supervisão;
  • decisões climáticas estejam conectadas às decisões financeiras;
  • as informações divulgadas sejam consistentes e defensáveis.

Nesse contexto, clima deixa de ser um tema técnico isolado e passa a integrar o dever fiduciário e a agenda central de governança.

IFRS S2 como teste de maturidade organizacional

A IFRS S2 funciona, na prática, como um teste de maturidade da organização. Ela evidencia se a empresa:

  • entende seus riscos climáticos de forma estruturada;
  • integra clima à estratégia e às finanças;
  • possui dados confiáveis e processos robustos;
  • consegue sustentar suas narrativas com evidências.

Empresas que tratam o tema apenas como comunicação institucional tendem a enfrentar dificuldades crescentes. Já aquelas que usam a IFRS S2 como ferramenta de gestão fortalecem sua resiliência, previsibilidade e credibilidade perante investidores e reguladores.

Materialidade nas IFRS S1 e IFRS S2: a lógica do investidor

A IFRS S1 e IFRS S2 adotam o conceito de materialidade financeira, alinhado à lógica das normas contábeis tradicionais e à perspectiva do investidor. De forma objetiva, uma informação é considerada material quando sua omissão, distorção ou apresentação inadequada puder influenciar decisões econômicas de investidores e credores.

Esse conceito desloca o debate de sustentabilidade do campo do impacto genérico para o campo da relevância econômica, reforçando que o foco das divulgações não é tudo o que a empresa faz em ESG, mas aquilo que efetivamente pode alterar suas perspectivas financeiras.

Materialidade sob a ótica do ISSB

De acordo com o ISSB, a materialidade nas IFRS S1 e IFRS S2 não se limita a ativos e passivos já reconhecidos nas demonstrações financeiras. Ela inclui também riscos e oportunidades que ainda não se materializaram contabilmente, mas que podem afetar, no futuro:

  • fluxo de caixa;
  • acesso a financiamento;
  • custo de capital;
  • valor econômico do negócio.

Além disso, a avaliação de materialidade deve considerar horizontes temporais mais amplos do que aqueles tradicionalmente utilizados na contabilidade financeira, incorporando impactos de médio e longo prazo.

O que a materialidade exige na prática

Na prática, aplicar corretamente o conceito de materialidade nas IFRS S1 e S2 significa:

Priorizar riscos e oportunidades com impacto financeiro relevante

A empresa deve identificar quais riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e ao clima têm potencial de gerar efeitos financeiros relevantes, positivos ou negativos. Isso envolve avaliar não apenas a probabilidade de ocorrência, mas também a magnitude do impacto econômico.

Riscos com baixa probabilidade, mas alto impacto — como eventos climáticos extremos ou mudanças regulatórias abruptas — não podem ser ignorados.

Considerar efeitos ao longo do tempo

A materialidade não se restringe ao exercício corrente. As normas exigem que a organização avalie impactos no curto, médio e longo prazo, reconhecendo que muitos riscos ESG se manifestam de forma gradual, mas acumulativa.

Essa abordagem exige que premissas estratégicas, projeções financeiras e testes de recuperabilidade de ativos considerem cenários futuros plausíveis.

Avaliar impactos diretos e indiretos

A análise de materialidade deve abranger não apenas os impactos diretos das operações da empresa, mas também efeitos indiretos ao longo da cadeia de valor, incluindo fornecedores, clientes e parceiros estratégicos.

Isso é particularmente relevante para riscos climáticos e de transição, que frequentemente se materializam fora dos limites operacionais imediatos da organização.

Um dos maiores desafios organizacionais

A aplicação da materialidade financeira é, na prática, um dos pontos mais desafiadores da implementação das IFRS S1 e IFRS S2. Isso ocorre porque ela exige integração real entre áreas que tradicionalmente atuam de forma separada, como:

  • finanças e contabilidade;
  • gestão de riscos (ERM);
  • sustentabilidade;
  • compliance e controles internos;
  • operações e estratégia.

Sem essa integração, a organização corre o risco de:

  • identificar riscos relevantes, mas não conectá-los às decisões financeiras;
  • divulgar informações inconsistentes entre relatório de sustentabilidade e demonstrações financeiras;
  • fragilizar a confiabilidade e a defensabilidade das informações divulgadas ao mercado.

Materialidade como instrumento de governança e decisão

Quando bem aplicada, a materialidade deixa de ser apenas um requisito normativo e passa a funcionar como um instrumento poderoso de governança e tomada de decisão. Ela ajuda a organização a:

  • priorizar recursos e investimentos;
  • alinhar sustentabilidade à estratégia de negócios;
  • fortalecer a gestão de riscos;
  • aumentar a previsibilidade e a confiança do mercado.

Por outro lado, uma materialidade mal definida tende a gerar relatórios extensos, pouco objetivos e de baixo valor informacional — exatamente o oposto do que investidores esperam das IFRS S1 e S2.

Materialidade e o papel do conselho de administração e do comitê de auditoria

A definição de materialidade financeira nas IFRS S1 e IFRS S2 não é uma decisão operacional nem um exercício técnico isolado. Trata-se de um julgamento estratégico que envolve premissas, prioridades e escolhas que impactam diretamente a forma como a empresa se apresenta ao mercado e como decisões de capital são tomadas. Por isso, a responsabilidade final recai sobre o conselho de administração, com papel central do comitê de auditoria.

As normas deixam implícito — e, em muitos pontos, explícito — que a materialidade é parte do dever fiduciário, pois influencia as informações consideradas relevantes para investidores e credores.

Responsabilidade do conselho: direção, supervisão e julgamento na IFRS S1 e IFRS S2

O conselho de administração deve assegurar que a organização:

  • adote critérios claros e consistentes para definição de materialidade financeira;
  • considere impactos no curto, médio e longo prazo;
  • avalie riscos e oportunidades de sustentabilidade e clima de forma integrada à estratégia e às finanças;
  • compreenda e aprove os principais julgamentos e premissas utilizados.

Na prática, isso significa que o conselho não deve apenas “tomar ciência” do relatório, mas sim:

  • questionar o racional de exclusão ou inclusão de temas materiais;
  • avaliar se os riscos identificados refletem, de fato, a exposição real do negócio;
  • verificar se há coerência entre narrativa estratégica, indicadores divulgados e decisões financeiras.

Esse nível de envolvimento aproxima a análise de materialidade das decisões tradicionais do conselho sobre orçamento, investimentos, aquisições e gestão de riscos estratégicos.

O papel crítico do comitê de auditoria

O comitê de auditoria assume papel técnico e estruturante na governança da materialidade, funcionando como ponte entre sustentabilidade, riscos, finanças e asseguração.

Entre suas responsabilidades estão:

  • supervisionar os processos de identificação e priorização de riscos e oportunidades materiais;
  • avaliar a conectividade entre informações de sustentabilidade e demonstrações financeiras;
  • analisar a robustez dos processos, controles internos e fontes de dados;
  • acompanhar o grau de julgamento envolvido em premissas, estimativas e cenários;
  • interagir com auditores independentes sobre riscos relevantes, escopo de asseguração e potenciais inconsistências.

Com a exigência de asseguração independente prevista na regulação brasileira, o comitê de auditoria passa a ter papel ainda mais relevante na defensabilidade das informações divulgadas.

Materialidade, controles internos e asseguração

A materialidade definida segundo IFRS S1 e IFRS S2 orienta:

  • quais dados precisam ser coletados;
  • quais processos devem ser controlados;
  • quais informações estarão sujeitas à asseguração.

Por isso, decisões inadequadas de materialidade podem gerar:

  • fragilidade nos controles internos;
  • inconsistências entre relatórios;
  • questionamentos de auditores, reguladores e investidores.

Cabe ao conselho, apoiado pelo comitê de auditoria, garantir que:

  • a definição de materialidade esteja documentada;
  • os processos sejam rastreáveis;
  • os dados sejam verificáveis e auditáveis.

Materialidade como instrumento de governança

Quando bem estruturada e supervisionada, a materialidade deixa de ser um requisito técnico e passa a funcionar como um instrumento de governança corporativa, permitindo ao conselho:

  • direcionar a estratégia de sustentabilidade;
  • priorizar riscos relevantes;
  • alinhar discurso, decisão e execução;
  • reforçar a credibilidade da organização perante o mercado.

Nesse contexto, a materialidade financeira se consolida como um ponto de convergência entre estratégia, riscos, finanças e governança, e não como um exercício burocrático de reporte.

Adoção no Brasil das IFRS S1 e IFRS S2: o que muda com a Resolução CVM nº 193

O Brasil assumiu posição de vanguarda regulatória ao incorporar as normas IFRS S1 e IFRS S2 ao seu arcabouço normativo por meio da Resolução CVM nº 193, tornando-se um dos primeiros países a alinhar o mercado de capitais local aos padrões globais do ISSB.

A norma estabelece um cronograma claro e progressivo de adoção, permitindo que as companhias se preparem para um novo patamar de exigência em governança, transparência e qualidade da informação:

  • Adoção voluntária nos exercícios de 2024 e 2025 (com publicação em 2025 e 2026);
  • Adoção obrigatória a partir do exercício de 2026 (com publicação em 2027) para companhias abertas;
  • Exigência de asseguração independente do relatório de sustentabilidade;
  • Prazo de publicação alinhado às demonstrações financeiras, reforçando a conectividade da informação.

Além disso, a Resolução CVM 193 prevê um período de transição, com asseguração limitada na adoção inicial e asseguração razoável em fase posterior, o que aumenta progressivamente o nível de responsabilidade das companhias, da administração e dos órgãos de governança.

Na prática, essa regulação eleva o relatório de sustentabilidade ao mesmo nível de rigor, escrutínio e responsabilidade das demonstrações financeiras tradicionais. Isso coloca pressão direta sobre:

  • estruturas de controles internos;
  • rastreabilidade e qualidade dos dados;
  • governança da informação;
  • capacidade de responder a questionamentos de auditores, reguladores e investidores.

Empresas que não iniciarem essa preparação com antecedência tendem a enfrentar riscos operacionais, reputacionais e regulatórios relevantes.

De relatório a sistema de decisão na IFRS S1 e IFRS S2

Talvez o maior erro das organizações seja tratar as IFRS S1 e IFRS S2 como um projeto de compliance documental — focado apenas na produção de mais um relatório. Essa abordagem tende a gerar alto custo, baixo valor informacional e fragilidade na execução.

Na prática, as normas exigem uma transformação estrutural na forma como decisões são tomadas e sustentadas dentro da organização. Elas demandam:

  • Revisão dos processos decisórios, com incorporação explícita de riscos e oportunidades de sustentabilidade e clima;
  • Integração entre estratégia, gestão de riscos e orçamento, evitando decisões desconectadas da realidade financeira futura;
  • Maturidade em governança, dados e controles internos, compatível com o nível de asseguração exigido;
  • Capacidade de sustentar decisões com evidências, e não apenas com narrativas ou compromissos genéricos.

Nesse sentido, IFRS S1 e S2 funcionam como um sistema de gestão, que força a organização a estruturar melhor suas escolhas estratégicas, seus critérios de priorização e sua alocação de capital.

Empresas que enxergarem esse movimento apenas como custo regulatório tendem a sofrer mais — seja por retrabalho, inconsistências ou perda de credibilidade. Já aquelas que utilizarem as normas como ferramenta de gestão e governança constroem vantagem competitiva clara, maior previsibilidade e melhor diálogo com investidores e financiadores.

Conclusão sobre a adoção da IFRS S1 e IFRS S2

Ao longo deste artigo, analisamos como as IFRS S1 e IFRS S2 redefinem a relação entre sustentabilidade, risco e desempenho econômico.

As normas IFRS S1 e IFRS S2 marcam uma transição definitiva no mercado: sustentabilidade e clima deixam de ser narrativas institucionais e passam a ser variáveis econômicas centrais, diretamente conectadas à geração de valor e à continuidade dos negócios.

Por isso, a adoção das IFRS S1 e IFRS S2 não deve ser vista apenas como obrigação regulatória, mas como instrumento de fortalecimento da governança e da tomada de decisão.

Para conselhos de administração, executivos e áreas técnicas, o desafio não está apenas em compreender o texto normativo, mas em reorganizar a forma como decisões são tomadas, registradas, monitoradas e comunicadas ao mercado.

Mais do que atender a um requisito regulatório, a adoção das IFRS S1 e S2 representa uma oportunidade concreta de:

  • fortalecer a governança corporativa;
  • aumentar a resiliência frente a riscos futuros;
  • elevar a credibilidade da organização;
  • sustentar decisões estratégicas com dados, evidências e consistência.

No fim, o verdadeiro diferencial não será quem “publica o relatório”, mas quem usa essas normas para tomar decisões melhores e mais robustas no longo prazo.

 

 

 

 

 

 

 

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